A Alimentação Infantil

A nossa relação com os alimentos começa na infância e carregamos possíveis traumas ou vícios até a nossa vida adulta. Além disso, a alimentação infantil deve e necessita ser melhor compreendida, principalmente, quando observamos os altos índices de obesidade infantil em todo o mundo.

Mitos da alimentação infantil

A alimentação infantil envolve diversos mitos, que afetam a alimentação de crianças no mundo todo.

Pra começo de conversa, a crença de que comer é um comportamento instintivo cai por terra. Comer é, na verdade, um ato aprendido.

Para compreendermos melhor como funciona o aprendizado alimentar, vamos esclarecer os principais mitos com relação à alimentação infantil:

  • 1 – Comer é a prioridade do corpo: a respiração e o controle corporal são as prioridades, só depois a alimentação;
  • 2 – Comer é instintivo: apenas nos primeiros meses de vida temos reflexos primitivos, enquanto aprendemos habilidades orais, motoras e sensoriais para comer. Portanto, comer é ato aprendido, sendo que o comportamento alimentar se estabelece até os dois anos de idade;
  • 3 – Comer é fácil: comer é complexo e envolve o uso de todos os sistemas e órgãos;
  • 4 – Brincar com a comida é errado: brincar com a comida faz parte da aprendizagem alimentar, sendo a melhor forma da criança explorar suas características sensoriais;
  • 5 – Se a criança está com fome ela vai comer: a fome não é suficiente para crianças com problemas para comer. A dor, desconforto e inabilidade para comer suprimem a fome;
  • 6 – Quando crescer vai passar: seletividade alimentar é diferente de dificuldade para comer, nesses casos o tempo não resolverá o problema, sendo necessário investigação e tratamento com equipe multidisciplinar e abordagem integrativa.

Também precisamos ficar de olhos abertos para os fatores que influenciam o aprendizado alimentar, que são: saúde, desenvolvimento, habilidades orais e sensoriais, motivações, emoções, contexto social e familiar, ambiente, estilo parental e sentimentos maternos. Complexo, né?

Alimentação Infantil

Saúde da criança e aprendizado alimentar

Quando doentes, as crianças se fecham para novas situações e isso inclui as experiências com o comer.

Algumas condições de saúde acarretam também traumas emocionas, o que potencializa o desenvolvimento na alimentação.

No geral, doenças agudas afetam menos que as crônicas, no entanto, em ambas o desenvolvimento do aprendizado alimentar precisa ser cuidado, inclusive com cardápios adequados.

É importante prestarmos atenção em alguns sinais físicos que afetam o apetite e que indicam que a criança pode estar tendo algum problema alimentar, como: náuseas, vômitos, dor e sensação de barriga cheia.

Não é raro vermos dificuldades alimentares em bebês, principalmente com refluxos. O ciclo de alimentação e desconforto fica registrado pelo bebê, que numa tentativa de se preservar do incômodo, acaba criando resistência para mamar.

Crianças com alergia alimentar, problemas cardíacos e respiratórios também podem ter dificuldade alimentar.

Habilidade motora oral no alimentação infantil

A região da boca é a primeira a se desenvolver no feto. Isso, aliado aos reflexos instintivos para sugar a mama, garantem que o bebê nasça preparado para se nutrir nos primeiros meses.

Quando pensamos nesse desenvolvimento oral fica claro porque os bebês começam a explorar o mundo externo através da boca, não é mesmo?

As estruturas presentes na boca são super importantes para a alimentação infantil e muitos problemas alimentares são decorrentes da dificuldade de sugar, mastigar e engolir, realizados por essas estruturas.

Uma coisa importante a dizer é que os bebês exercitam essa região toda vez que tocam e levam algum objeto à boca, por isso oferaça mordedores adequados. Ahhh, e sem essa experiência prévia a recusa de alimentos pode ser maior. Melhor prevenir, certo?

A importância dos sentidos no desenvolvimento alimentar

Nós comemos com os sentidos e para as crianças não é diferente. Então é preciso avaliar se existe alguma dificuldade sensorial e, quanto antes identificado, melhor.

Crianças assim tendem a selecionar alimentos com os quais que se sentem mais confortáveis e seguros para consumir, geralmente pela palatabilidade ou textura.

Alguns sinais importantes são: dificuldade em cuidados pessoais, medo de alguns movimentos, dificuldade de ter as mãos sujas nas brincadeiras e alimentação, resistência a passar cremes no corpo, dificuldade de ficar sentada, etc.

Alimentação infantil e as emoções

Os processos cognitivos estão fortemente associados às emoções, portanto, criar um ambiente seguro e positivo no momento da alimentação é essencial para o aprendizado alimentar. Registros emocionais positivos e um ambiente adequado ajudam a construir uma alimentação infantil saudável.

É incrível pensarmos que o primeiro vínculo emocional entre mãe e filho se estabele através da alimentação: a amamentação, momento em que sinais faciais, sinais corporais e não verbais são expressos e analisados.

Pode tirar seu cavalinho da chuva se você acha que as suas crenças e emoções não têm influência na alimentação do bebê.

A alimentação infantil está fortemente relacionada à maternidade!

Desafios e soluções para a alimentação infantil saudável

Identificar as limitações orais da criança é necessário para entender quais seus desafios no desenvolvimento alimentar. Assim como avaliar se existe uma seletividade ou dificuldade alimentar, inclusive para desenvolver uma alimentação infantil com cardápio mais assertivo.

A alimentação infantil divertida significa alimentação saudável. Recursos lúdicos, afetivos e positivos, como refeições com a família, preparo da comida, servir a mesa, criar pratos bonitos e criativos, tudo isso são recursos incríveis para ajudar na alimentação infantil.

Estimular a autonomia para a criança se alimentar sozinha, sem punições dos adultos, é outra dica interessante.

É importante ressaltar que forçar, chantagear ou distrair a criança para comer não é benéfico, uma vez que não criará memórias positivas sobre a alimentação.

De qualquer maneira, para tratar um problema tão complexo, é necessário avaliação de time multidisciplinar de especialistas, como pediátras, fonoaudiólogos e terapeutas, que precisam estar unidos para tratar a criança como um todo.

Se seu filho apresenta dificuldade para comer, respire, confie que existe um caminho seguro e busque ajuda.

A Alimentação Infantil

Fonte: Relações Cognitivas com o Alimento na Infância, Patrícia Junqueira (2017).